O pão da multidão e a voz da Igreja

Liturgia da Palavra

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Leituras:

2º Reis 4, 42-44
Salmo 145, 10-1115-18
Efésios 4, 1-6
João 6, 1-15

áudio

No meio da sequência de Marcos surgem de repente cinco evangelhos tomados de João. A razão é que o episódio da multiplicação dos pães encontra-se muito mais elaborado em João, e também o fato de Marcos ser mais breve que os outros evangelhos, deixando espa­ço para alguns trechos de João que, senão, ficariam sem lugar na liturgia dominical. A versão joanina da multiplicação do pão (evangelho) é semelhante à de Marcos, coloca, porém, os acentos de modo diferente. Enquanto Marcos lembra a situação do povo no êxodo (os grupos de 50 e 100 etc.), João acrescenta alguns detalhes que evocam a atuação do profeta Eliseu (cf. 1ª leitura): os pães “de cevada”, o “rapaz” (cf. 2Rs 4, 39).

Com isso se relaciona a reação do povo no fim: Jesus é “o profeta que deve vir ao mundo” (Elias, a quem Eliseu é intimamente associado) (Jo 6, 14). Também a distribuição dos papéis é diferente. Enquanto em Marcos os discípulos tomam a iniciativa de pensar em comida e Jesus os instrui para que eles mesmos deem de comer ao povo (Mc 6, 37; des­de 6,7 estamos em contexto de “aprendizagem”), João coloca a iniciativa soberanamente nas mãos de Jesus; a gente até acha que ele nem quis pregar, somente multiplicar pão (6, 5-6). Em Marcos, o mistério do Cristo é velado e os discípulos, incompreensivos. Em João, Cristo radia uma luz divina e os discípulos são testemunhas – igualmente incompreen­sivas – de uma revelação de seu mistério em forma de um “sinal” (como João chama os milagres). Mistério que já se faz pressentir pela palavrinha “Donde (compraremos pão)?” (6, 5), que, para o leitor iniciado no mistério de Jesus, já sugere a resposta: “de Deus”. É o que o “Discurso do Pão da Vida” (cf. próximos domingos) mostrará. O Jesus de Marcos esconde para as categorias judaicas a natureza de sua missão, porque são inadequadas para compreendê-la; o de João revela para o cristão a glória de Deus. Mas o resultado é o mesmo: quem fica com as categorias antigas, fica por fora.

No fim do episódio, João descreve com insistência a quantia de restos que sobraram, sublinhando mais uma vez a revelação da obra de Deus em Jesus Cristo: nada (e ninguém) se pode perder (cf. 6, 12, cf. 6, 38). Depois, mostra o outro lado da medalha; povo reconhece em Jesus o profeta que repete as façanhas de Eliseu e Elias, o profeta escatológico que deve vir ao mundo (cf. Ml 3, 1. 23; Dt 18, 15); mas não reconhece categoria divina. Quer prender Jesus nas categorias messiânicas tradicionais: proclamá-lo rei. Mais tarde, ficará claro em que sentido Jesus é rei (Jo 18, 33-37). Mas, neste momento, Jesus não pode aceitar o messianismo do povo; retira-se na solidão (6,14-15, cf. semelhante recusa do messianismo judeu em Mc 8,27-33).

A 2ª leitura ajuda para sentir o ambiente de reunião escatológica que marca a multiplicação dos pães, realização do banquete escatológico anunciado em Is 25, 6-8. Pois ­esse banquete é para todos os povos – universalismo realizado de maneira plena na unidade da Igreja, sucintamente resumida por Paulo em Ef 4, 4-6: um só Corpo, um só Es­pírito, uma só esperança, um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai, sete (!) elementos que fazem da Igreja uma unidade divina. Para os leitores da carta, essa unidade era, muitas vezes, problemática. Nós estamos acostumados a dizer que a Igreja é una, e ficamos cegos para as reais divisões que existem no seu seio; estamos “ideologicamente proibidos” de enxergá-las (não pelo Papa, mas por nosso próprio comodismo). Contudo, será bom checar a realização dessa unidade. E melhor ainda, me­ditar sobre as qualidades que servem de base para essa unidade: a humildade, a mansidão, a paciência, o mútuo suportar-se na caridade. Não parecem qualidades subversi­vas, mas são: a subversão da bondade irresistível, desarmada e desarmante, o “vínculo da paz”, que garante a unidade do Espírito. Não entrar no jogo das oposições intermi­náveis, mas, a partir de um lúcido reconhecimento das divisões existentes, superá-las, pela erradicação firme e paciente de suas causas mais profundas (portanto, não por um cômodo encobrimento da realidade). Eis aí o caminho para a verdadeira unidade uni­versal dos irmãos, para que juntos possam sentar-se à mesa do banquete do Senhor.

Por Alan Lucas de Lima, Gestor e blogueiro no blog Pequeno Monge Agostiniano

 

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